No fim das contas eu acabo sozinha. A completa solidão de quem é estranho demais pra ser ajudado, pra ser compreendido. Dói tanto que eu arrepio o tempo todo, como se meu corpo traduzisse em calafrios como é ter um coração assim, como é sentir com todos os sentidos, como é sentir-se preso em si mesmo, preso no desespero da ânsia por não sentir, por parar só um pouco, só um pouquinho que seja, mas não poder, não conseguir.
Achei realmente que nunca mais passaria por um conflito dessa magnitude. Acreditei, que minha existência estava escrita com caneta definitiva, ou num arquivo "somente leitura" e depois "the end". Imaginei que passaria dia por dia vivendo certezas num quintal com cercadinho, bem bonito e com roseiras do lado de dentro, e que olharia a lua da janela, feliz da vida por estar protegida e tranquila. Mas um dia, eu percebi que os passarinhos mais bonitos voavam muito além do meu roseiral e que eu só queria descobrir onde é que eles passavam a noite e qual era o galho em que pousavam pr'o encontro em que então harmonizavam suas melodias, ou que ensaiavam seu próximo vôo... Eu passei a notar o que eu não via... Talvez porque os velhos óculos em preto e branco deixaram de se fazer necessários e eu pareço conseguir ver um pouquinho de cor. Meus olhos vermelhos começaram a clarear e mesmo com a força da luz, não conseguem mais fechar.
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