Por mais que a gente se esforce, há sempre coisas que não conseguimos dizer. A gente sente com tanto afinco que precisa se mostrar exatamente como se é, mas as palavras não exprimem todas as coisas... E acredito que não há linguagem nessas horas que transmita mais verdade, que um olhar. "Os olhos são a janela da alma" disse Alphonse Karr, e é difícil decidir se isso é uma dádiva ou um martírio. Há tanta coisa em nós que não queremos tocar... Imagine só deixar que alguém transponha. Mas as coisas que já existem, encontram sempre um caminho para se fazer notar, como a água em seu percurso implacável, que encontra até mesmo entre as rochas espaços vazios para jorrar e então se deixa derramar. Existe então o livre arbítrio? As escolhas que fazemos parecem não ter tanta importância quando pensamos nos impulsos elétricos que tomam conta de nossos corpos e produzem indubitavelmente as nossas ações. A mente... Por mais psiquê, ainda é biológica e quando pensamos em espírito, alma ou qualquer coisa que esteja além do corpo, "isto", parece vagar à procura de peças para um quebra-cabeças que afinal, os olhos encontram antes mesmo de nós. Como são invasivos os olhos... Cavam buracos imensos em segundos e ficam alheios aos seus atos, até o momento de transbordar... E então transbordam e se regeneram como uma flor de lótus e ficam ainda mais astutos do que antes, mas sempre entregues.
Achei realmente que nunca mais passaria por um conflito dessa magnitude. Acreditei, que minha existência estava escrita com caneta definitiva, ou num arquivo "somente leitura" e depois "the end". Imaginei que passaria dia por dia vivendo certezas num quintal com cercadinho, bem bonito e com roseiras do lado de dentro, e que olharia a lua da janela, feliz da vida por estar protegida e tranquila. Mas um dia, eu percebi que os passarinhos mais bonitos voavam muito além do meu roseiral e que eu só queria descobrir onde é que eles passavam a noite e qual era o galho em que pousavam pr'o encontro em que então harmonizavam suas melodias, ou que ensaiavam seu próximo vôo... Eu passei a notar o que eu não via... Talvez porque os velhos óculos em preto e branco deixaram de se fazer necessários e eu pareço conseguir ver um pouquinho de cor. Meus olhos vermelhos começaram a clarear e mesmo com a força da luz, não conseguem mais fechar.
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